
Dizem que o que lá vai não volta, que a corrente turva revolta os seres
apanhados por ela, que nas margens ficam cicatrizes de pequenos grandes-
nadas, que não se sabe por onde se perdem os navegantes e que o seu
destino é sempre a maior incógnita, mesmo quando resguardados por
coordenadas.
Escrevi esta frase no meu Facebook, acompanhada de uma imagem do
rio Lima, depois de um fim de semana em que o revisitei. As fábulas da
mitologia grego-romana chamam-lhe o rio do esquecimento, da dissimulação.
Almada Negreiros reproduziu a lenda desse rio, em 1957, numa tapeçaria que
está hoje exposta na parede de uma das salas da Pousada Monte de Santa
Luzia, em Viana do Castelo.
Há dias, ouvi o presidente da Câmara de Paredes de Coura dizer numa
entrevista televisiva que o festival de Paredes de Coura não é apenas um
festival de música alternativa, mas também um evento de afirmação cultural
dum território. E fixei-me nessa afirmação para recordar o fim-de-semana que
passei em torno do rio Lima e do património cultural em seu redor e para
apresentar, neste curto texto, alguns exemplos do quanto o autarca tem razão.
A recordação que partilho nesta crónica com os leitores do Fenther.net é
uma sugestão, em jeito de desafio, para a descoberta, por parte dos
melómanos que, por estes dias, rumam ao festival de Paredes de Coura. A
descoberta da grandeza da simplicidade das regiões do Minho e do Parque
Nacional da Peneda-Gerês, muito próximas desse festival, e o reavivar da
memória das cores dos dias!
Digo reavivar porque guardo o rio Lima como o rio das recordações. As
recordações que quero conservar ad aeternum, mesmo que os romanos
acreditassem que, entre o mundo dos vivos e o mundo dos mortos, havia uma
fronteira feita de águas do rio do esquecimento, que apagavam a memória e
faziam esquecer tudo o que acontecera em vida.
Recordação do cheiro a urze e a pinheiros da minha infância, da agro-
pastorícia e do madrugar para ordenhar as vacas e as ovelhas.
Recordação da minha inquietação de menina apaixonada pelos animais
que não compreendia a corrida da “Vaca das Cordas”, uma tradição secular
que leva à vila mais antiga de Portugal, Ponte de Lima, justamente, milhares de
forasteiros.
Recordação dos autocarros de turistas, em caravana, que paravam no
parque com vista para a ponte sobe o rio Lima, uma ponte de inspiração
romana, gótica e medieval.
Recordação do delicioso arroz de sarrabulho no restaurante “Açude”, do
lado esquerdo, depois de atravessar a ponte, e com vista para a corrente.
Recordação das margens desbravadas e das bermas de estradas
palmilhadas para encontrar o muito aclamado restaurante e wine bar “Vai à
fava”, em Ponte da Barca, atraída pela fama das suas tapas e pela forma como
o espaço reinventou os sabores tradicionais minhotos, mas bater com o nariz
na porta por estar fechado, por ser dia de descanso do pessoal.
Recordação da alternativa, menos glamorosa, mas igualmente muito
recomendável e muito tradicional, da taberna “São João” e dos petiscos e do
vinho à malga que aí pude degustar, também no centro histórico de Ponte da
Barca.
Recordação, ainda, da loja e restaurante “Vila Gourmet”, ainda em Ponte
da Barca, com pratos vegetarianos no menu e com brunchs de fim de semana.
Recordação dos 67 espigueiros alinhados dentro da muralha da
fortificação em volta do castelo da freguesia de Lindoso, a fazer lembrar os
tempos de miúda, em que brincava às escondidas nesse tipo de silos de
armazenamento de cereais.
Recordação dos moinhos que se procuram no trilho de 7 quilómetros de
Parada-Lindoso, em pleno Parque Nacional da Peneda-Gerês, sendo esse
caminhar em trilhos interpretativos um dos inúmeros desportos de montanha
possíveis nesta reserva natural.
Recordação dos bungalows-ninhos-de-amor do Parque de Campismo de
Entre Ambos-os-Rios, ainda naquele Parque Nacional, a convidar a uma
descida de kayak pelo rio e a descalçar os pés na albufeira de Touvedo.
Recordação do apelo e do lavar de alma causado pelas imagens e pelos
quartos inspirados no sol e na terra e pelos lodges alusivos ao fogo, ao vento, à
água, à montanha, ao céu e à alfazema que compõem o “Na-Bé - Lavender
Lodge & Spa”, um alojamento de luxo, criado em 2012, em Ponte da Barca,
ecológico e enquadrado no conceito de ecoturismo, que privilegia o contacto
com a natureza e a homenageia, proporcionando aos hóspedes amantes da
natureza qualidade, conforto e pequenos luxos, com o mínimo de impacto para
o meio ambiente (http://na-be.eu/pt/na-b.html).
Recordação do corpo a regenerar-se na piscina, no banho turco e na
suana da coqueluche que abriu há um ano em Ponte da Barca, o Tempus Hotel
& Spa (http://www.hoteltempus.com/pt), em que o design aliado à natureza nos
fazem absorver o coração do Minho, com o sol a torrar-nos a pele, enquanto
observamos cavalos a pastar e a relinchar nas pastagens em volta.
E porque os dias querem-se com um corpo saudável, com uma mesa
farta e com um bom vinho, uma escapada ao Minho tradicional da minha
infância, mas cada vez mais adulto e maduro, cada vez mais hospitaleiro, cada
vez mais contemporâneo e cada vez mais com laivos de cosmopolita termina
bem brindando com um verde fresquinho à festa da vida!
Um brinde por cada recordação dos afectos que cada uma destas
recordações crava na alma.
Um brinde por cada recordação do amor vivido nestas paisagens.
Um brinde por cada momento em que as verdejantes encostas minhotas
nos transportam para perto de alguém.
Um brinde ao rio das recordações!
Porque amanhã já é dia de trabalho…E é preciso vivermos o rio,
sentirmos o rio, recordarmos o rio e refugiarmo-nos nele, de vez em quando,
para esquecermos o regresso à ficção-real!
Fátima Araújo
Jornalista da RTP
